Recomendação ao VIII Congresso: Sporting - Unidade e Solidariedade
Toda a modalidade desportiva profissional está sujeita a ciclos exógenos e endógenos. Os primeiros são marcados pela conjuntura económica, influenciando a forma como são geradas as receitas. Os segundos resultam da variabilidade do sucesso desportivo.
Ora em qualquer actividade, a diversificação permite dirimir o risco e tornar menos variável o ambiente de gestão. Foi essa diversidade (ecletismo) que permitiu manter o estatuto do Sporting Clube de Portugal enquanto associação desportiva durante as décadas de 80 e 90, apesar do insucesso verificado na modalidade mais popular – o futebol. Inversamente, nos últimos anos, verificou-se um gravíssimo afastamento dos Sócios e adeptos, e consequentemente das receitas potenciais de quotização, bilheteira e merchandising.
O ecletismo deve ser assumido como essencial para a grandeza do Clube, em respeito pela sua história e como forma de garantir níveis relevantes de receitas da forma mais independente possível dos ciclos económicos e desportivos.
É no entanto notório que várias modalidades não são capazes de se auto-sustentar, pelo menos de forma consistente e directa. Mas, indirectamente, são elas que corporizam muito do que foi e é o Sporting e a sua marca.
Porém a marca Sporting está hoje desgastada, facto que se repercute no número reduzidíssimo de Sócios efectivos pagantes. E mais do que Sócios, modalidades ou património, nestes últimos anos perdeu-se parte da alegria e orgulho em ser do Sporting. Os Sócios estão distantes e desinteressados. Perderam as tardes de desporto e convívio em Alvalade, o discurso tornou-se demasiado comercial e financeiro. Os Sócios tornaram-se clientes ora do Clube, ora da SAD.
Acontece que as decisões (leia-se despesas) dos Sócios são em grande medida irracionais do ponto de vista económico. Quando estes passam a ser clientes, passam também a tomar decisões racionais do ponto de vista económico. Um exemplo simples de apontar são as muitas Gamebox adepto adquiridas por ex-Sócios.
Há que garantir que os Sócios são sempre tratados como tal, e nunca como clientes, por uma questão de genética associativa, mas também para maximizar as receitas.
Assumindo então um Clube de Sócios, e aceitando que algumas modalidades são deficitárias, há que garantir que o Clube como um todo é viável. Importa apurar as receitas que o Clube gera (incluindo futebol), e decidir quanto alocar a cada modalidade.
É portanto fundamental definir a Unidade e Solidariedade do Sporting como base de qualquer estratégia de futuro. Quando a SAD precisou do Clube, o Clube salvou a SAD. Quando o Clube precisar da SAD, esta terá de estar totalmente disponível – sem quaisquer restrições!
Vender acções da SAD é uma forma de criar restrições, alimentar interesses terceiros, e roubar ao Clube as receitas extraordinárias cíclicas que são geradas pelo futebol – necessárias às sustentabilidade do Clube como um todo e ao abatimento do passivo.
Deverá portanto optar-se pela total recusa da emissão de VMOCs como solução financeira do Clube, devendo ser pensada, se algum dia se revelar possível, a recompra das acções em bolsa, com as seguintes condições:
- Recompra, a 5 euros, das acções ainda detidas pelos Sócios que participaram na primeira oferta pública (quota suplementar)
- Recompra a valor de bolsa ou ao valor nominal das restantes acções no mercado
- Criação de clausulas estatutárias que obriguem a SAD ao mesmo tipo de divulgação de informação pública a que está hoje obrigada
Como alternativa deverá promover-se uma operação que alivie a tesouraria do Clube. Duas opções a considerar:
- Emissão de empréstimo obrigacionista, remunerado à taxa fixa de 3%, com prazo de 3/4 anos
- Criação de um fundo, remunerado à taxa fixa de 3%, usado para comprar dívida do Clube à banca. O fundo seria criado com remuneração garantida e não teria prazo de vencimento definido. Deverá ser garantida alguma liquidez às unidades de participação
Num período de 3 anos esta operação, num montante de cerca de 40 M.€, permitiria:
- Poupar entre 0,5 e 1,1 M.€ em juros, face a um juro bancário de 3,5% ou 4,0%, ou mais em caso de subida repentina das taxas de juro
- Desafogar a tesouraria num montante superior a 10 M.€, devendo garantir-se que a maior parte deste valor é usado para redução do restante passivo bancário
- Envolver Sócios e Adeptos numa solução não fracturante, sem venda da SAD, e remunerando o investimento
- Remunerar parte do juros em serviços Sporting, tentando aproveitar um possível efeito fiscal
O investimento seria por exemplo de apenas 1.000 €, para 40.000 investidores (Sócios ou adeptos).
Face ao exposto, recomenda-se:
1) Assumir o ecletismo como forma de garantir a grandeza do Sporting e receitas indirectas, desde que exista Unidade e Solidariedade no Clube
2) Manter sempre a relação com os adeptos na vertente “Sócio”, e nunca como “Cliente”
3) Recusar a alienação de qualquer participação adicional na Sporting SAD
4) Que seja estudada uma operação financeira que alivie a tesouraria do Sporting, desde que seja evitado o aumento das despesas correntes

Finalmente alternativas para se estudar. Espero que se mostrem viáveis!
Saudações Leoninas
Comentário por Pedro Silva a 2 de Abril de 2009 @ 2:56
A operação com vista a aliviar a tesouraria parece interessante à partida mas falha e muito no contexto actual de crise em que nos encontramos. Isto porque partir do pressuposto de que existem “apenas” 40.000 investidores (1.000 €/unit) dispostos a comprar dívida do SCP é demasiado optimista (exemplo da necessidade da garantia do estado para os bancos conseguirem investidores para as suas emissões de dívida), para além da remuneração ser de apenas 3% (existem depósitos a prazo actualmente com taxas superiores).
Nem tudo é mau na crise em que nos encontramos, existindo mesmo alternativas no contexto de desconfiança dos investidores e de desequilíbrio financeiro internacional (exemplo do diferencial de taxas de juro EUR/USD).
Darei o exemplo do SCP poder aproveitar o diferencial das taxas de juro europeia vs norte-americana (operação de arbitragem), podendo:
1- contrair um empréstimo em dólares se possível com garantia mutua (taxa de juro menor que a europeia);
2- converter os dólares em euros (taxa de câmbio pouco penalizadora);
3- depositar a prazo o montante financiado em euros (existem taxas em alguns bancos superiores a 4%, mesmo 5%);
paralelamente (outra operação de arbitragem e uma vez que se prevê que a taxa fwd seja superior à taxa spot),
4- comprar a um ano (X milhões de dólares) à taxa forward (eur/usd), utilizando contratos forward ou futuros;
5- vender a um ano (X milhões de dólares) à taxa spot.
Adicionalmente (operações de marketing de eventos), poderiam também ser mais criativos e organizar eventos (quinzenais) em que seriam cobradas as entradas (exemplo 15 €/pessoa) e que decerto angariavam vários sócios e adeptos (também famosos). Teriam era de ter em mente uma reduzida concessão de “pulseiras” (entrada livre) de modo a angariar mais fundos. Poderiam mesmo sortear prémios nestes eventos para os que comprassem um “talão” ou afins..
É preciso é alguma imaginação..
Em último caso punham os sócios voluntários e geeks em jogos de azar (poker..) a jogar no casino de modo a angariar fundos para o clube…ehehe
Comentário por S. a 2 de Abril de 2009 @ 13:47
Caro S.,
agradeço desde já o primeiro comentário de cariz técnico às ideias apresentadas! Isto porque infelizmente, no Congresso, tal quase não existiu…
Quanto aos “apenas 40.000″ investidores, não julgo que seja irrealista. Se há muita gente com a sua liquidez limitada, também há com certeza 10.000 Sportinguistas espalhados pelo mundo que terão todo o gosto em investir 4.000 euros com remuneração a 3%. Ou mais…
Quanto a taxas, duas notas:
- Neste momento, taxas superiores em depósitos a prazo, só para montantes bastante elevados (normalmente >200 mil euros)
- Usei 3% como taxa de referência por ser i) a mesma taxa que se anunciou para os VMOC, e ii) ser a taxa que o Sporting irá supostamente pagar após renegociação com a banca (Euribor + 1,5%)
Neste momento a minha opção seria pela constituição de um fundo, a depositar num dos bancos credores, como garantia do nosso passivo. Esta opção teria cariz equivalente à “recompra” de dívida, mas com a vantagem (face a um empréstimo obrigacionista) de não ter termo definido e poder funcionar quase como um bolsa de depósitos recebidos pelo Clube. Depois poderia pensar-se em swaps de taxa de juro, etcetc
Claro que o risco subjacente indicaria uma taxa superior… mas esta seria uma aplicação de fundos que qualquer Sportinguista teria gosto em fazer, na certeza que iria aliviar a tesouraria do seu Clube.
Enfim, não pretendo seguramente substituir-me a um banco de investimento e explicar em poucas linhas o que necessita de um estudo mais aprofundado. Mas penso que seria perfeitamente exequível.
Finalmente, apostar em arbitragens fx “cost of carry” é que não me parece que seja a vocação do Sporting!
De facto parece mais fácil meter uns voluntários a jogar casino 
Comentário por João Mineiro a 3 de Abril de 2009 @ 18:20
Obrigado!
Não fui ao congresso porque nem sequer sou sócia do SCP.
Continuo a não acreditar nos 40.000 sócios e muito menos nos 10.000 sócios espalhados pelo mundo que estejam dispostos a investir 4.000 euros/unit.
Quanto às taxas, garanto que existem taxas > 3% para montantes iguais ou superiores a 50 mil euros…(ia dar exemplos mas de repente não me parece correcto…em pvt posso dar uns exemplos). O que o SCP irá pagar após renegociação também ainda não é claro…por enquanto espero
A constituição de um fundo a 3% nunca terá a rendibilidade suficiente que compense a criação do mesmo. Como garantia poderiam utilizar o depósito a prazo que tinha referido no post anterior (ponto 3) ou (como acontece actualmente) apenas as acções com mais alguns penhores e promessas de penhor (em alternativa poderiam pensar nas receitas obtidas com os contratos comerciais, etc). A garantia do “passivo” é importante mas não é a questão fundamental porque os bancos até tentam facilitar este detalhe junto dos devedores (em especial junto do SCP).
Operações de arbitragem fx no actual contexto significa obter lucros e não se trata de apostar porque nem se está a arriscar.
Concordo que toda a questão necessita de um estudo mais aprofundado, com conhecimento dos detalhes.
Jogar poker é sempre uma alternativa.
Boa sorte e continuem a lutar!
Comentário por S. a 3 de Abril de 2009 @ 19:35
S. , primeiro que tudo - faça-se Sócia! Todos nunca seremos demais.
Segundo, quando falava em “apostar” em arbitragem, queria dizer “optar por”, mas acabei por escrever um paradoxo
Sobre as taxas, a ideia seria agrupar um conjunto grande de pequenos investidores - e esses nunca conseguem os tais 3% em depósitos. Outros investidores/sportinguistas de “referência” tratariam do resto. Aliás, o valor de 40 M.€ é meramente indicativo… Só será possível apontar um valor correcto conhecendo as contas consolidadas e com um orçamento de tesouraria na mão, para estimar o défice de tesouraria anual.
Quanto à criação do fundo propriamente dito (chamemos-lhe Fundo de Tesouraria Sporting), o termo não é técnico, antes uma simplificação. Qual seria a melhor a melhor forma de reunir os investidores, clientes de vários bancos?
Reunido então o dinheiro, este seria i) dado em garantia da dívida bancária e ii) aplicado a taxa superior a 3%. Aos investidores seriam pagos 3% (vá, 3,5%), e o resto da margem serviria para comissões de gestão. Talvez ainda sobrasse algum…
Continuaremos a missão a que nos propusemos, e agradecemos todos os contributos, especialmente os esclarecidos como o seu!
Até breve, assim esperamos.
Comentário por João Mineiro a 4 de Abril de 2009 @ 0:16
E ainda dizem, com a maior cara de pau, que não há alternativa!!!
O que há é, sem dúvida alguma, um enorme boicote!
Comentário por Gavazzo a 4 de Abril de 2009 @ 18:11
E Pedro Pinto Souto?
Comentário por Julio a 4 de Abril de 2009 @ 18:28